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Os primeiros passos no Brasil, onde sapato era privilégio

Quando os portugueses chegaram às terras no novo continente certamente ficaram escandalizados com a simplicidade e o total despojamento de seus habitantes. Com suas roupas e sapatos pesados, coerentes com o clima europeu, não podiam compreender a nudez de seus corpos e seus pés descalços, ainda que em terras tropicais.

Com o tempo, os sapatos de tecido – um meio termo entre as duas culturas – tornaram-se os mais comuns em solo brasileiro. Mas, inicialmente, eram privilégio de poucos que por eles podiam pagar.

Por volta de 1808, quando a corte portuguesa veio ao Brasil, os escravos eram proibidos de usar sapatos. Mas, quando conseguiam a liberdade, compravam um par de calçados como símbolo da nova condição social. Habituados aos pés descalços, muitos deles nem se acostumavam a usá-los e seus calçados acabavam sendo utilizados como mero objeto de prestígio. Assim, muitos os carregavam orgulhosamente sobre os ombros.

 

 

Escravo

Ilustração de Carlos Julião (1740-1811), publicada no livro Riscos iluminados, que faz um retrato dos costumes e diferenças sociais do império português.

 

“O europeu que chegasse ao Rio de Janeiro em 1.816 mal poderia acreditar, diante do número considerável de sapatarias, todas cheias de operários, que esse gênero de indústria se pudesse manter numa cidade em que cinco sextos da população andam descalços.

Compreendia-o entretanto logo, quando lhe observavam que as senhoras brasileiras, usando exclusivamente sapatos de seda para andar com qualquer tempo em cima de calçadas de pedras, que esgarçam em poucos instantes o tecido delicado do calçado, não podiam sair mais de dois dias seguidos sem renová-los, principalmente para fazer visitas”.

Jean Baptiste Debret. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. São Paulo, Círculo do Livro, s.d., p. 249-51

 

Os modelos em couro só começaram a surgir a partir de 1824, com a chegada dos primeiros alemães ao País, especialmente na primeira colônia, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Na confecção dos calçados eram aproveitadas as sobras do couro utilizado para fazer os pertences de montaria. Ao contrário dos brasileiros que, principalmente nas camadas mais pobres da população, estavam acostumados a andar descalço, os alemães não gostavam de realizar trabalhos agrícolas sem sapatos.

Os calçados de pelica, mais resistentes, só passaram a ser produzidos no Brasil em 1840, por um artesão francês.

No final do século XIX o modelo básico de calçado para a maioria da população era a abotina fechada. O modelo era confeccionado em couro, camurça ou pelica. As mulheres mais abastadas usavam versões de seda. No entanto, grande parte da população pobre calçava chinelos simples.

Nesta época, o ramo produção de calçados era local em pequena escala, operada principalmente por artesãos. As primeiras fábricas começaram a surgir na primeira metade da década de 1870, a partir da popularização da máquina de costura, utensílio criado em 1829.

O primeiro centro produtor de calçados surgiu na cidade do Rio de Janeiro, então centro político e econômico do Brasil, devido à disponibilidade de energia elétrica e meios de transporte para escoamento da produção.

Após a efervescência da Revolução Industrial, o mercado enfrentou longo período de estagnação, entre 1920 e 1960, devido a guerras e à grave recessão mundial. No Brasil, a retomada do setor calçadista veio em seguida, com a produção de calçados de couro para o mercado externo.

Hoje, nosso País é o terceiro colocado no ranking dos maiores produtores mundiais.

Quando os portugueses chegaram às terras no novo continente certamente ficaram escandalizados com a simplicidade e o total despojamento de seus habitantes. Com suas roupas e sapatos pesados, coerentes com o clima europeu, não podiam compreender a nudez de seus corpos e seus pés descalços, ainda que em terras tropicais. Com o tempo, os sapatos de tecido – um meio termo entre as duas culturas - tornaram-se os mais comuns em solo brasileiro. Mas, inicialmente, eram privilégio de poucos que por eles podiam pagar. Por volta de 1808, quando a corte portuguesa veio ao Brasil, os escravos eram proibidos de usar sapatos. Mas,…

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Sobre Ana Bernardinelli

Quem sou eu? Pergunta difícil, até porque ainda não encontrei a resposta. Mas, uma certeza é que desde muito cedo soube que queria escrever. Sobre tudo. Dos tempos em que brincava de “fazer jornal”, com o meu fictício “O Linguarudo”, até meus textos adolescentes em “Penúltima Palavra – porque a última é sempre da diretora”, o periódico da escola, fui confirmando meu desejo. Ainda cursando Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, no coração da sempre incrível Av. Paulista, comecei a trabalhar na área. Já formada, passei por emissoras de rádio FM e AM. Também trabalhei em revistas – de automóveis, brinquedos e variedades, além de prestar serviços para empresas e entidades de classe com textos corporativos. Nos últimos anos, fui repórter do mais importante semanário da Zona Norte de São Paulo. Apaixonada por história da arte, cultura pop, música, cinema e literatura, tenho ainda um grande vício. Sim, confesso: sou sapatólatra. Em estágio avançado. E sem esperanças de cura. Simplesmente não resisto ao desejo de buscar novidades e curiosidades sobre este objeto que ultrapassa sua definição e se mistura com tantas emoções. Porque por trás de um belo par de sapatos, há sempre uma grande história. Aqui, no entanto, está a minha terapia! Vocês agora são meus convidados para esta aventura fashion! Ana Bernardinelli

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